Eu amo a música porque ela nada mais é

do que um exemplo de como se dá, sempre, o mundo.

Por que assim como a vida é, a música é uma forma de nascimento,

desenvolvimento, contemplação, aurora e cadência.

 

Assim como em todo momento da vida; em todo instante abre-se um mundo

diante dos nossos olhos.

A cada compasso.

 

Assim como nós conseguimos sentir o tempo de forma lenta, ou muito rápida,

a percepção é o que delimita a que tempo caminha cada pulso, cada nota,

até o próximo acorde.

 

É preciso sempre se fazer presente para o próximo segundo,  para um mundo novo.

Você estará lá, de alguma maneira que só se sabe mesmo, na próxima pulsação. Pode ser qualquer coisa; um espasmo, uma nota, um sorriso, um grito ou o repouso. Tanto faz, mas sempre e denovo, terá que se revelar o próximo minuto.

Amo a música porque ela é a forma mais pura da vida

Porque ela vive em tudo que se ouve, em tudo que se pensa.

 

Gabriel H. 

Compreender o instrumento não consiste em vê-lo, mas em saber manejá-lo; compreender nossa situação real não consiste em defini-la, mas encontrar-se numa disposição afetiva; compreender o ser é existir.

Pensar não é mais contemplar, mas engajar-se, estar englobado no que se pensa, estar embarcado – acontecimento dramático do ser-no-mundo.

A comédia começa com o mais simples de nossos gestos.

Ao estender a mão para aproximar uma cadeira, dobrei a manga do meu casaco, risquei o piso, deixei cair a cinza do meu cigarro. Ao fazer aquilo que queria fazer, fiz mil coisas que não queria.

Quando a imperícia do ato se volta contra o fim buscado, estamos em plena tragédia. É como a caça que, na planície coberta de neve, foge em linha reta do barulho dos caçadores, e assim acaba por deixar precisamente os vestígios que levarão a sua morte.

É assim que somos responsáveis para além de nossas intenções. Temos um dedo preso na engrenagem, as coisas voltam-se contra nós. Isto significa que nossa consciência e nosso domínio da realidade pela consciência não esgotam nossa relação com ela, que nós estamos aí presentes com toda a espessura de nosso ser.

Eu tento encontrar em teu olhar, 

um vestígio, nem que seja só brasa…

Não me entenda mal, mas que só pelo puro prazer

de te olhar nos olhos

fez o tempo parar,

me fez esquecer de tudo.

Não me olha assim

enquanto eu olho proutro lado,

me tira o chão, me corta a voz…

Não quero perder em não ver você.

olhar pra mim.

 

Gabriel H.

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino,
o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.

E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte
eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta,
e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando.
E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.

E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena;
é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, “Minha namorada”, a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.

E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora – tão purinha entre as marias-sem-vergonha
- a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.

E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

Vinícius de Moraes.

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Um texto escrito com sangue, um poema que consegue expressar toda a delicadeza de um amor,

sempre valerá ser re-lido.

Por estes, tomo Vinícius não só para trazê-lo em vivo, mas para reavivar em cada uma que já amou,

em cada um que já se apaixonou por alguém, a euforia de um grande amor.

É este, o único texto publicado que eu nao espero resposta, pois ele silencia minhas palavras,

mas faz eu me sentir o maior amante do mundo.

Gabriel H.

Hoje eu procurava palavras, mas elas se cruzavam, davam seus saltos, como se me provocassem.

Logo eu, que não resisto a uma bela provocação…

Vê!

Quando tenta dizer um sentimento teu, buscar em uma palavra uma sensação,

Quando tenta buscar em si o sentido de uma palavra,

Quando ouve algo que te embrulha o estômago…

É sim uma maneira de se polir com o mundo,

uma maneira de buscar em algum lugar que é só seu, o sentido para o que os seus olhos e ouvidos lêem.

A linguagem é um meio válido de se conhecer ?

É a linguagem, responsável por todo tipo de consciência humana ?

Não posso enxergar nada direfente, pois eu dependo dela, eu sou o que eu digo, ou o que eu ouço e quero ouvir.

Não me venha dizer por dizer,

eu não quero ser melhor ou pior do que eu já sou, só quero enxergar onde você está.

Cadê ?

Gabriel Henrique da Silva

1. Eu escuto muitas pessoas falando sobre o lado bom das coisas:

Isso não revela em mim que sempre há um lado ‘bom’ nas coisas, mas que há pessoas diferentes, com diferentes vistas para o mundo. Essas mesmas pessoas me dizem que eu penso negativamente, quando eu sinceramente, ponho-me sobre alguma questão.

Eu te pergunto:

* Se nós temos diferentes opiniões acerca de determinado assunto, nossas idéias hão de ser sempre opositórias? Ou pior, elas precisam ser extremamente ignorantes e exclusivas com as outras?

* Um pré-conceito, por mais que quase insignificante, serve como um ‘distanciador’ dos indivíduos, ou isso é outro pessimismo meu?

2. (Das vantagens do “pessimismo”)

O pensamento negativo (como gostam de chamá-lo), te dá todas as opções de uma situação, seja ela material, ou mental. Enquanto você pensa somente positivamente, de uma maneira que isso não agrida seus costumes, sua fé ou outros sentimentos, como quem diz: “dará tudo CERTO!”, você sempre se depara com um valor incerto. O que há de certo são coisas concretas, ou imutáveis, não o que satisfaria meu espírito.

Nisso se mostra um grande problema: Como uma má compreensão de si mesmo, ou como eu gosto de chamar, da sua linguagem general, pode causar um pré-conceito, ou uma alienação com o mundo e com o indivíduo.

Toda essa conversa sobre moralismo para me fazer entender que não há pensamento negativo em mim. Não espero que tudo me satisfaça mesmo, e assim eu nem gostaria tanto do mundo. O pensamento negativo sim subtrai o que há de interesses, e se movimenta de uma forma natural, independe da moral para existir.

“Não há verdades fundamentais, apenas erros fundamentais.”                 – Gastón Bachelard.

Gabriel Henrique da Silva

Você sabe quando tudo aparece sem brilho,

E do dia pra noite, tudo o que você faz, não tem sentido nenhum?

Eu sempre penso, qual é afinal, o sentido de estar aqui?

Aparentemente,  viver serve pra nada.

Parece que você aprende as coisas que você sempre soube,

Que cada surpresa que você tem, de alguma maneira, você já esperava.

Então, vamos pensar juntos.

De quê vale o esforço?

De que vale toda dedicação?

Pelo menos pra mim, funciona assim:

Eu coloco tudo isso em um ponto, ou vários pontos, fora de mim,

Algo que eu devo alcançar, para me alcançar.

Agora, o que é comum para todos?

Qual o fim para mim, para você e para qualquer um que você conheça?

Eu respondo:  A morte.

Então vamos nos dedicar, nos esforçar, para morrer.

Para morrer a tempo.

Qual a satisfação nisso?

Que satisfação?

A morte não exige satisfação.

Qual a diferença entre deixar de viver, e morrer?

Quem se arrisca ?

Você é sua linguagem.

Duvida !?

Se duvida, se prepare.
Se quiser entender, esteja pronto pra ler e reler,
ouvir – e ouvir mais uma vez !

Você, o que seria de você sem a linguagem ?
E não escrevo somente sobre a linguagem falada ou escrita…
Poderia você, pensar ?
Eu digo – Não !

Desde os primórdios, o que foi que possibilitou a sobrevivência da espécie humana, e o que tornou o humano – Homem ?
Eu digo, se não fosse pela linguagem, não existiriam nem vestígios da razão. Não existiria eu, nem “mundo”.
O fato é que é preciso linguagem para compreendermos qualquer coisa, ou compreendermos que nada podemos saber.
Sem ela, os olhos para nada serviriam. Os olhos humanos.
Pois olhariam tudo, e veriam nada.
Repito, olha pra tua linguagem, cego !
Daí podes enxergar o mundo.
Já disseram algo assim em uma história de milagre, em um livro bastante extenso, e talvez o mais conhecido por esses lados de cá.

Não estou dizendo a linguagem como exclusividade humana,a linguagem escrita e meio de comunicação pessoa-pessoa.

Mas a linguagem é sim o que possibilita o Homem ser hoje, o que é, ou o que era.

Mundo-Homem-Homem.


Cada conceito, cada pensamento, até a menor das coisas que você consegue imaginar.
Podes acreditar que é tudo, tudo pela linguagem ?

Sim ?

Não ?!

Gabriel Henrique da Silva.

Hoje eu quero perder a inteligência
Quero perder a memória e perder o coração,
Quero me perder, em qualquer lugar.
Hoje minha vontade é de não ter sentimento nem
um. ..
minuto para mim, que passa em pensamentos incontáveis
e sentimentos tão altos, ou fundos, ou algo que eu nem sei como dizer,
que não consigo sentir o chão nos pés.
Hoje eu queria ser mestre chão.
Queria contar meus passos, sem andar tão devagar pra isso.
Queria não ter olhos, nem ouvidos nem alguém a quem magoar,
ou a ser magoado.
Hoje, era o aniversário da minha alegria.
Mas mesmo com a grande festa que esperei,
o que se comemorou foi o aniversário da tristeza, e o nascimento
da tragédia.
Hoje foi o dia em que minha alegria esqueceu-se.
Acima de tudo, de si,
e de mim.

Gabriel Henrique da Silva.